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Inadimplência no campo avança de 2% para 4% em três anos

Nos últimos anos, o agronegócio brasileiro foi impactado pela combinação de queda nos preços internacionais das commodities, altos custos de insumos e juros elevados. Esse conjunto de fatores reduziu as margens de lucro e dificultou o pagamento de financiamentos. Como resultado, há um aumento expressivo do endividamento rural, estimado em bilhões de reais, e um crescimento da inadimplência em operações de crédito agrícola. 

Muitos produtores, que aproveitaram a fase de preços recordes entre 2020 e 2022 para expandir investimentos, agora enfrentam dificuldades para honrar os compromissos assumidos. Segundo dados apresentados nesta segunda-feira, 15, durante o Fórum de Crédito e Endividamento Rural, promovido pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), a inadimplência entre pessoas físicas e os bancos — que concentram de 80% a 85% do crédito rural — chegou a 5,9% este ano, enquanto os atrasos renegociados somam 15,8% da carteira. 

Conforme João Ferrari Neto, analista do Banco Central, entre as pessoas jurídicas, a taxa é menor: 0,5%, com renegociações em torno de 6,5%. Nas cooperativas de crédito, o índice de atraso é de apenas 0,4%, resultado, segundo o especialista, da proteção proporcionada pelo Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro). Já nas instituições financeiras públicas, como o Banco do Brasil, a situação é mais delicada: os atrasos atingem 6,3% e renegociações chegam a 16,4%, acima da média do setor privado.

Soluções para conter o endividamento

Para evitar um colapso no campo, especialistas que estiveram presentes no encontro defenderam algumas saídas viáveis para a situação atual.

Um dos pontos mais destacados foi a necessidade de ampliar o subsídio governamental. Segundo o economista Fabio Silveira, da MacroSector Consultores, enquanto os Estados Unidos destinam cerca de 11% da receita agrícola em apoio público, o Brasil destina apenas 1,5%. “Não podemos ter vergonha de buscar financiamento público para um setor estratégico da economia brasileira”, afirmou.

Outro pilar para enfrentar a crise, segundo Ângelo Ozelame, fundador da Lucro Rural, é a mudança de postura na administração das fazendas. Ele destacou que, em anos de margens elevadas, produtores assumiram financiamentos pesados para expansão, sem avaliar os riscos de queda de preços e aumento dos custos. “Precisamos voltar à base e tomar decisões mais racionais, baseadas em números e no fluxo real de caixa”, recomendou.

A terceira solução defendida no evento foi o incentivo à mediação extrajudicial como forma de renegociar dívidas e contratos. O desembargador Mário Kono, presidente do Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, ressaltou que processos judiciais prolongados não atendem mais à urgência da economia. “A composição entre produtor, trading e instituições financeiras é o caminho mais eficaz para evitar a paralisia do setor”, disse.

O que causou o endividamento no agronegócio?

Durante o evento, o economista da MacroSector destacou que a raiz do problema está no esmagamento da rentabilidade agrícola a partir de 2022. Silveira salientou que nesse período, o custo de fertilizantes disparou com a guerra na Ucrânia e a volatilidade cambial, enquanto a taxa básica de juros atingiu níveis historicamente altos, encarecendo o capital de giro.

Dados apresentados pelo especialista mostram que, na soja, por exemplo, a relação de troca saltou de 19 para 24 sacas por tonelada de fertilizante — um aumento de 22% que pressionou as margens de lucro. “Estamos em plena crise, não temos outra palavra para utilizar neste momento”, afirmou Silveira, lembrando que a inadimplência no setor subiu de 2% em 2021/22 para 4% em 2024/25.

Ele lembrou que o setor sofreu com queda nos preços internacionais das commodities e enfrentou choques climáticos, como as enchentes no Rio Grande do Sul e secas no Centro-Oeste.

Para o presidente da Aprosoja MT, Lucas Costa Beber, a soma de fatores agravou a fragilidade financeira do setor. “Vivemos uma alta inflação de insumos, a queda do preço das commodities e catástrofes climáticas”, afirmou. No entanto, o dirigente acredita em saídas viáveis para se evitar o colapso no setor.

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